quinta-feira, 1 de abril de 2021

Ensopado de borrego - Idanha-a-Nova

 Piedade, piedade popular

Os cantos alimentam a alma como se de alimentos se tratasse. Nestas terras entranhadas estão as primitivas religiões, de longe nos séculos, que se fazem perdurar nas vozes das mulheres.

Os nossos antepassados rogavam as almas pela germinação e fecundação das suas sementes, terminado o Inverno. Cultos pagãos que nos fazem viajar na história. A Alta Idade Média oferece-nos a tradição dos dias de hoje, onde o culto aos mortos é celebrado pedindo a intercessão de Deus a favor das almas sujeitas a penas do purgatório, de forma a alcançarem o céu. 

A encomendação das almas é um dos cantos de piedade popular, genuíno e português, e segundo Catana (2005) não conhecemos nenhum outro povo que o cante.

Durante a Quaresma, altura do renascer das plantas, pequenos grupos de homens e mulheres do mundo rural unem-se e continuam  no alto das povoações da Raia Beirã a dar vida aos cantos de piedade, a “Encomendação (Amentar) as almas”.

Mesmo que outrora tenham migrado para Lisboa ou outras localidades em busca de pão, a população quando volta reata com desejo a tradição e mantém o canto popular acordado desde a Idade Média. Às sextas-feiras da Quaresma, até mesmo na Semana Santa a Encomendação sai às ruas, quebrando o silêncio da noite, para que possa ser ouvido nas dezasseis freguesias do concelho.

A piedade soa em vozes de mulheres entre o som do sino, tornando inquieto o sono da aldeia. Uma emoção que sufoca de amor a alma e o coração e “Ele” escuta-as lá no alto, e ao mistério, para afastar o medo. Hoje chamam-lhe Eco.

                                       

                      Fig 6 - Encomendação das almas Ladoeiro (registo pessoal).

Na Páscoa, revivendo a mensagem de “Desejo e Perfume- Folar de Idanha a Nova ” deste blogue, mata-se o borrego, tradição que vem de longe, dos costumes religiosos assentes no cristianismo e no judaísmo, sendo o animal o símbolo da libertação. Ainda nos dias de hoje, como refere Longo (2013), a Rota da Pastorícia centrada nesta região tem grande importância em Idanha a Nova.


Ensopado de borrego - Limpe o borrego de gorduras e corte-o em pedaços. Faça um refogado com cebola, alhos picados e 2 dl de azeite. Deixe bringir um pouco e adicione o tomate pelado  picado, o colorau, as folhas de louro, o piri-piri e a carne. Envolva tudo, regue com o vinho tinto e com o branco e tempere com sal a gosto. Tape o tacho e deixe cozinhar durante uma a duas horas, dependendo do tamanho (idade) do borrego.

O amor partilhado têm mais amor!

Trabalho académico Mestrado Historia da Alimentação- Gastronomia Maria Caldeira de Sousa  U. Coimbra 2019/2020











Folar De Idanha a Nova (Proença a Velha)

         Desejo e perfume

  • Naquele primeiro dia da semana, Elas acordaram cedo. Andavam apressadas e tristes, batiam no peito e lamentavam, as filhas de Jerusalém. Choravam por elas e pelos seus filhos, a pedido de Jesus (Lucas: 23,28). Levavam perfumes com mãos pesadas, Elas estavam presentes na morte de Jesus (Lucas: 23,49) impotentes e persistentes até ao fim, viram de longe a morte e sua declaração de fim. Acompanharam o corpo sepultado na véspera do sábado, viram o túmulo e o corpo silenciado viram de longe a morte e sua pedra declarando o fim.

     S. Lucas escreve e insiste em descobrir naquelas mulheres um motivo, um desejo, uma vontade de não deixar a morte dizer a última palavra (Lucas: 8). Elas prepararam perfumes com especiarias e unguentos para o corpo morto de Jesus (Lucas: 23,56). Guardaram o sábado, repousando! Nas mãos os cheiros, nos olhos a paisagem de morte e dor. O óleo perfumado era uma tradição, algo que era costume fazer com o corpo morto, como a última homenagem.   

             

  • Fig 1 e 2 Lamentação sobre o Cristo Morto (pintor italiano Andrea Mantegna, in Pinterest.PT).

    A pedra mostra-nos a expressão da vitória dos poderosos que, mais uma vez, perseguiram, torturaram e venceram a utopia dos pobres. E lá estava a pedra, plena de gravidade e de absolutos fins. Elas sabiam que teriam de enfrentar a pedra e sua arrogância.  Era maior que Elas, era pesada e difícil para ser afastada, imagino.

    Numa Tríade entre S.Lucas, S.Mateus e S.Marcos, compreende-se que a pedra foi afastada não por Elas, mas por algo bem mais profundo. S.Mateus vai registar um grande terremoto e associá-lo a um anjo do Senhor, que remove a pedra e se senta sobre ela enquanto conversa com as mulheres (Mateus: 28,1,2,3; Marcos: 16, 4 e 5).

    Com a pedra removida o processo não está terminado. Elas terão que interpretar, procurar sinais, conclusões de leitura que ajudassem a entender o inesperado. As figuras de anjos vão ter este papel tal qual como na anunciação do nascimento de Jesus para Maria (Lucas: 1). Foi assim à luz do evangelho.

    O inesperado exige das mulheres uma espiritualidade profunda de acreditar para além do possível. Olhos de ver o novo. Ouvidos de ouvir o que vem. A envolvência com todo o corpo, o perfume que traziam as mulheres deixavam as narinas atentas e sensíveis. A pedra removida e as aparições enchem os olhos das mulheres de enigmas, que elas interpretam como acontecimentos e entendem a sequência, assim como a gestão  dos conflitos e resiliência que nós hoje sabemos administrar. É madrugada e nós mulheres ao redor do mundo continuamos a acordar cedo, preparando perfumes.


    Unindo num alguidar de barro, [já bem usado era este que os meus olhos viram, pena não ter fotos, pois fiquei sem bateria nesta pequena viagem que fiz para entrega de take aways] (farinha, açúcar, fermento e a canela). Trabalhando sempre com as mãos misturei muito bem, o cheiro a canela fazia-se notar no branco imaculado como se de pequenos pedaços de dor se acalmassem. Formei nesta mistura um vulcãozinho. Juntei-lhes os ovos, o sumo da laranja de Idanha (tão docinhas que roubei no quintal dos meus vizinhos...), o azeite e a água ardente. Amassei com a alma a pensar na festa que vamos celebrar, senti que a massa se fundiu numa só quando não colava as minhas mãos, era hora de a deixar repousar... Os mais antigos usavam o alguidar dentro de outros com água a ferver e embrulhavam um pano (linho os mais ricos) e duas mantas para abafar e levedar. Deixei por 12 horas, mas antes de me deitar tirei o alguidar da água, senti que não era preciso, afinal estava um calorzinho de primavera, ontem. Finta a minha massa, dividi-os, fiz 3 folares e com a ponta de uma faca molhada fiz um corte na massa. Coloquei-os no forno a 200ºc. Brunindo-os com açúcar batido com clara e um pinguinho de azeite a meia da cozedora. Baixei um pouco a temperatura e foram cozer novamente.  Tornaram-se lustrosos os meus folares. 

Divirtam-se e Páscoa Feliz  <3 

Trabalho académico Mestrado Gastronomia Maria Caldeira de Sousa  U. Coimbra 2019/2020